dias normais

revolve?


Archive for the 'Vida besta' Category

Parabéns atrasado

Ontem foi o meu aniversário — 23 anos, vejam só — e não sei mas tenho a impressão de que em breve esse blog completará (ou completou) os seus 5 anos de existência — ou serão seis?

Sei lá.

O importante é que teve bolo de chocolate e salgadinhos. (Você também é importante, mãe!)

É isso aí, parabéns pra mim e pro dias normais. Ou não.

Eu gosto disso

Lendo na praia

Sentar na areia e abrir um livro, um livro que seja, e brisar por alguns minutos a esmo. Curtir. Curtir muito mesmo o momento e aproveitar. Me espicho e tento me esquentar um pouco sob o sol pálido de fim de tarde, sem nem notar os tênis já cheios e os bolsos fartos de areia, “Ah!” e “Ah!”. Praia meio esquecida, empoeirada, com águas escuras e às vezes claras. Camburi velha, então. Os olhos ressecados; me entreti com as ondas a quebrar preguiçosamente nos molhes, com o porto de Tubarão bem ao longe, cinza e triste, sob a poeira ferruginosa da Vale a escorrer do lado de lá. Os freios dos ônibus chiavam, logo atrás de mim, levando pessoas pros seus apartamentos depois de um dia de trabalho. Me lembram que a vida parou por ali, naquele mesmo ponto onde eu desci, e estava a me esperar.

Baunilha

Engraçado algumas coisas: num momento você sente um cheiro que imediatamente te faz de lembrar de um momento, de uma época, de um sentimento, de uma pessoa, de um sorriso e do sorriso de uma pessoa.

Uma onda absurda de coisas que você jamais imaginava que seria capaz de relembrar, que se conectam tão rapidamente quanto você pode processar e que, ainda assim, invadem a sua mente por tempo suficiente pra roubar alguns segundos da sua vida. Lembranças que, de outro modo, ainda existiriam por ali soltas, perdidas e inofensivas.

E nesse breve instante, tudo deixa de ser só vago pensamento e prosa para se tornar quase realidade.

Dá pra sentir pele, respiração; ver sombras entrando pela janela, noites excessivamente quentes no verão; ouvir uma música baixinha, o zumbido do ventilador ligado vindo da sala; andar por ruas vazias, se sentir sozinho numa rua lotada; a garganta seca, o suor na cara, o arrepio no braço; as palavras contidas; o último dia contado.

Desaparece tão rápido quanto surge, consumido, como ar que se respira.

O tipo de coisa que pode destruir um homem sem aviso nem motivo.

Mas que quando não destrói, purifica, e torna-se vitória.

Entrevista de emprego

Semana passada, meu pai – que está louco para me ver empregado – me arrumou uma entrevista de emprego em uma empresa que faz cartões em PVC, aqui de Vitória. O velho fica repetindo a mesma coisa, falando que quando ele era da minha idade, ele trabalhava e estudava o dia todo, essas coisas que só servem para me deixar pior.

Fui lá, conversei com o entrevistador e pelo jeito não ocuparia a vaga. Eles precisavam de alguém que trabalhasse o dia todo – e eu posso trabalhar apenas na parte da manhã. Além disso, acho que a vaga não correspondia ao que eu achava que era. Muita qualificação pra trabalho de menos.

Enfim, fazer o que? Tentar novamente, né. Quem sabe na próxima.

Mais tarde, conversando com alguns amigos da minha turma, na faculdade, eles começaram a me perguntar várias coisas e o porquê de eu não ter feito a barba para a entrevista, etc. Começou uma pequena discussão sobre algo que eu não esperava ouvir de pessoas que eu achava que tinham muito em comum comigo.

Não consigo compreender o fato de que aqui no Brasil – o pais SEM preconceito e discriminação – as pessoas terem tanto pre-conceito em relação à imagem dos outros. Não sei o que é ser normal nesse país de merda, mas sei que nunca se consegue ser o que a sociedade quer. Mesmo assim, continuo a ser cobrado para ser “normal” nesse mar de idiotas que engolem tudo que lhes é dito.

Poxa, uma barbinha? O que uma barbinha – já está grandinha :P – faz de tão grave, que pode denegrir a imagem de um adolescente em busca de um estágio? Será que sou relaxado, preguiçoso, ladrão, pobre, feio, por causa disso? Sim, tenho vários defeitos. Mas o que isso influi no trabalho que desejo exercer?

Se isso realmente ocorre, fico triste em dizer: ou essas são péssimas empresas que mal conseguem realizar uma boa entrevista de emprego ou o país em que moro é um tremendo celeiro de hipocrisia débil mental!

Afinal, por que querem tanta padronização, numa entrevista? Ora, eu quero é mostrar o que eu sou mesmo! Se pudesse, colocaria até um letreiro na camisa, mostrando as minhas qualificações. Seria até mais fácil para as próprias empresas – claro que não se pode definir a personalidade de uma pessoa somente pela roupa, por exemplo – escolher o empregado que quer, fazer uma entrevista mais personalizada, etc e tal.

Um designer precisa de ousadia, de personalidade, dessas coisas. Como posso me apresentar, me diferenciar, se isto é rejeitado pela maioria? Estou lá para ser escolhido, como presunto no supermercado. Se isto é mentira, o que devo fazer? Me matar, virar hippie ou viver na mata? Aceitar lavagem cerebral, não.

- Brinco ou piercing? Tá maluco, tem que tirar!!
- Tatuagem? NEM SONHANDO! Não vai conseguir emprego nunca!
- Cabelo grande? Coisa de mulher! Não importa se você tem o cabelo mais bonito que o daquela atriz que gasta uma fortuna no salão.

Até concordo com as três frases acima, mas, somente depois de estar contratado. Cada empresa tem suas regras, suas regras de segurança e de contuda. Isso eu não posso mudar. Mas antes, nem morto! Tirar a minha barba para uma entrevista? E se eu não for contratado? Fico sem barba e sem emprego.

Culpa do achismo brasileiro. Ninguém gosta de sofrer preconceito, mas na hora do “vamo ver”, “neguinho” é o primeiro a te julgar pela aparência. Isso que eu estou dizendo é porque eu não sou negro. Todo mundo sabe muito bem que pro lado deles é muito pior.

Até quando uma sociedade vai conseguir se manter assim, excluindo qualquer um que faça parte da minoria? O calo só dói quando é na gente.

Comente aí. Só não me diga que eu estou no planeta errado e que todos os paises são assim.