Estava meio sonolento, resultado dessas madrugadas passadas em claro, escrevendo no blog. Deitei no sofá da sala, a TV estava ligada no canal do tempo. Apertei os olhos e vi as horas na televisão: já estava atrasado para o show.

Me arrumei rapidamente e fui direto para o ponto, onde pegaria o ônibus para Vila Velha. Ao entrar no ônibus e olhar para o fundo dele, meus olhos foram interceptados por uma figura feminina que se postava de pé no meio do ônibus. Senti um vento gelado subindo pelas minhas costas seguido por uma brisa densa e morna no rosto - a previsão do tempo não havia falado nada sobre isso -, que me deixou estremecido durante alguns segundos. Sem olhar para o bolso e nem para as moedas, dei o dinheiro ao trocador que também não fez questão de conferir e me deixou passar.

O ônibus estava vazio, mas estávamos nós dois lá, de pé, um ao lado do outro. A cada curva e a cada freada do ônibus, esbarrávamos um no outro, trocávamos olhares cruzados, fingindo ser sem querer, fingindo que nós já não nos conhecíamos. Podia sentir que a conhecia, mas não consegui trocar uma palavra com ela.

Finalmente cheguei ao local e a maioria do pessoal já estava lá dentro. Na entrada, já era possível ver o nível da produção do evento. Peguei meu crachá de imprensa e segui pelo hall de entrada até a escada, abismado com a pujança do lugar - senti o vento gelado, a brisa morna -, virei de costas e vi a mesma garota do ônibus.

Aproximou-se de mim dando dois passos à frente e amigavelmente, disse:
- Oi Saulo, eu sou a Ive.
- Eu sei. - respondi perplexo. - então você é mesmo daqui?
- Sim, sou daqui. - acenou de alguma forma que não consegui compreender.
- Me desculpa, eu não quis ser mal educado.
- Tudo bem, Saulo, vamos?

Subimos a escada e estávamos no salão lotado de gente. Havia de tudo lá: emos, playboys, pattys, blogueiros, maconheiros entre outros seres indefinidos. Em cada canto, uma gostosa num mini-palco dançando e rebolando tão bem como um boneco de posto de gasolina. Telões e mais telões com videos e imagens do tipo que ninguém nem presta atenção - e eu fico me perguntando se realmente alguém se dá o trabalho de editar aquilo.

Na área VIP, muita badalação, comida e bebida liberada e um bate-papo com o Dead Fish que eu perdi por ter chegado atrasado. Lá estavam também os outros blogueiros com quem eu fiquei a maior parte do tempo.

A pior parte de se estar na área dos bacanas é, com certeza, perder toda a energia e emoção do bom hardcore frenético pipocando lá em baixo. Ficar lá em cima não tinha graça alguma, então a Ive me puxou pelo braço e fomos lá para baixo assistir à apresentação do Dead Fish, mas percebi que não agüento mais me enfiar no meio do porradeiro e preferi ficar de longe só assistindo.

Os dois shows foram muito bons, inclusive o final com D2 e Rodrigo entoando clássicos como Eu Quero Ver o Oco do Raimundos e Polícia, dos Titãs. Entretanto, acho que faltou mais ousadia na mistura. Ousadia, essa é a palavra. Por vezes Rodrigo ou D2 ficaram apagados no palco. Faltou um rap “de responsa” e uma guitarrada malemolente.

Sem perceber, a Ive já tinha sumido lá pelo meio do show do Marcelo D2, mas se ela me perguntasse se eu havia gostado da festa, eu teria respondido:

- Gostei sim, você sabe que sim. Afinal, você está aqui.

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